domingo, 12 de agosto de 2012

Fatos da minha infância

A dezessete de março
Do ano quarenta e oito
Botei a cara no mundo
Por ser teimoso e afoito
Não sei porque eu nasci
Só sei que me arrependi
Frente a tanto desconforto

Meu pai era muito rígido 
E filhos não alisava
E pelo menor motivo
O mesmo me castigava
Pela sua ignorância
Não vivi a minha infância
Feito escravo trabalhava

Na fazenda cajazeira
A minha pele deixei
Tudo o que ali sofri
Na minha mente guardei
Isto foi a muitos anos
Ficaram os desenganos
Que ali colecionei

Eu jamais esquecerei
De tudo o que ali vivi
Palco dos meus desenganos
Lugar que tanto sofri
No início da minha vida
Existência tão sofrida
Todo o meu tempo perdi

Daquela propriedade
Cada palmo eu conhecia
Dali todos os locais
Com frequência eu percorria
Era grande a ansiedade 
Em busca da liberdade
Que eu tanto desconhecia

Riacho do cajueiro
Que a tudo testemunhava
Era a estrada do calvário
Por onde o gado eu levava
Velha estrada e companheira
Da fazenda cajazeira
Por onde eu sempre passava

Bem no sopé da montanha
Ficava o gado a pastar
Era eu bem pequenino
E ficava à admirar
A serra imóvel sem vida
E a minha luta perdida
Mas sem pode protestar

Ali o que me esperava
Decorado eu ja sabia
A vegetação nativa
Com a qual eu convivia
Por medo eu a respeitava
Se na ortiga tocava
Logo o efeito sentia

Favela jurema preta
Unha de gato e facheiro
Maniçoba quixabeira
Xique-xique e juazeiro
Imburana e aroeira
Marmeleiro e catingueira
Gitirana e umbuzeiro 

Naquele ambiente hostil 
A minha infância vivi
Sofrendo feito um escravo 
Só maus tratos tive ali
Semi nu com os pés no chão 
Tomei uma decisão
Do cativeiro fugir

Eu tinha so quinze anos
E nenhuma experiência 
Meu pai era o meu senhor
Sem amor sem consciência 
Que ao extremo me explorava
Por dentro eu me revoltava
Em ver tanta prepotência

Meu sofrimento era em vão  
Meu pai não reconhecia
Trabalhava o dia inteiro
So ingratidão recebia
Pelo serviço prestado
Era sempre ignorado
Pelo muito que eu fazia

Usando de inteligência
Com um misto de ousadia
Pois desafiar meu pai
A tanto eu não me atrevia
Guardado dentro do peito
Aquele plano perfeito
Em prática eu colocaria

Sem documentos sem roupas
Sem rumo e sem dinheiro
Sem saber pra onde ia
Do acaso um passageiro
Sem tamanho sem idade
Em busca da liberdade
Fugindo do cativeiro

O meu futuro era incerto 
Maior a ansiedade
Porém eu tinha o apoio
Da minha dignidade
Preferiria morrer
Mas queria conhecer
O gosto da liberdade

Com quinze anos de idade
Tomei essa decisão
Eu so queria ser livre
Por ordem do coração
Empunhei minha bandeira
Da fazenda cajazeira
Fugi da escravidão

É a mais pura verdade
Que nestes versos eu pus 
Deus me da seu testemunho
E a ser correto me induz
Todo aquele sofrimento
Eu trago no pensamento
Meu calvário minha cruz

Essa minha triste história
O tempo não destruiu
E a fazenda cajazeira
Que o meu sofrimento viu
Lágrimas que derramei
Tantas vezes eu chorei
Por ter no peito o vazio

Sem sossego eu trabalhava
Era em excesso explorado
Uma hora da manhã
Eu ja estava acordado
Para o curral eu seguia
Era assim dia após dia
A minha lida com o gado

Bem no centro do curral
Duas árvores existiam
Duas grandes baraúnas
Que embaixo as vacas dormiam
E de forma inconscientes
Ruminando calmamente
O que na serra comiam

Cinco horas da manhã
Pra serra eu levava o gado
Já estava sentindo fome
Fisicamente cansado
O corpo sentindo frio
Com o estomago vazio
Ia por ser obrigado

A comida era precária
Eu bastante desnutrido
Sem direito a reclamar
Não me era permitido
Meu pai as regras ditava
Só o seu gado interessava
Que era lucro garantido

Apesar da quantidade
De gado que ali havia
De cada vaca o chocalho
Pelo som eu conhecia
Sem que ninguém me dissesse
Aonde a vaca estivesse
Seu chocalho eu distinguia

Totalmente desolado
Eu era um pobre pastor
Meu pai o dono de tudo
Que sem dó me escravizou
Entrei no esquecimento
E todo meu sofrimento
Nada significou

Desde os tempos de criança
Vivo nessa provação
Eu sempre vivi sofrendo
Passando desilusão
Pela vida maltratado 
Um carro desgovernado
Andando na contra mão

O que chamam de infância
Essa fase eu não vivi
Que a vida era madrasta
Muito cedo descobri
Minha vida foi sempre assim
Tudo é difícil pra mim
Tenho que admitir 

Sempre foi muito difícil
Atingir um objetivo
E apesar de tudo isso
Sempre fui compreensivo
Assim eu sempre vivi
Nada pude conseguir
Gosto de ser positivo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário